FILOSOFIA: Do surgimento à contemporaneidade.

Para os primórdios da filosofia, todos os saberes estavam incluídos nela. Desta forma, não é raro encontrar grandes matemáticos que eram considerados filósofos. No entanto, aos poucos a disciplina define suas características próprias e muda o cenário de maneira completa e significativa. Logo, para o filósofo francês Merleau-Ponty,  “a verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.

A forma mais remota de percepção de mundo se originou com a mitologia. Não obstante, a religião obteve grande papel nesta categoria e a filosofia ocidental passou a possuir particularidades abraçadas com a consciência mítico-religiosa. Atualmente, a filosofia possui a tentativa de aniquilar os preconceitos e fazer o uso do pensamento para analisar determinadas situações. Apesar disso, será que toda análise deriva de um pensamento filosófico? 

Pensamento filosófico – Chauí (2000, p.9-10)

A atitude crítica possui como a primeira característica a negação, fazendo com que se duvide de todos os pré conceitos e ideias estabelecidas pela sociedade em que vivemos. A segunda particularidade é positiva, tendo como objetivo a interrogação sobre a verdade: O que é? Como é? Por que é assim? Ou seja, essas são as principais propriedades de uma atividade filosófica. Foi exatamente desta forma que Sócrates criou seu dilema mais famoso: “Só sei que nada sei.” Ele tinha como objetivo duvidar de tudo o que lhe era imposto, não aceitando sem uma investigação sobre. Desta forma, esta atitude é conhecida como crítica e filosófica.

A reflexão filosófica se resume em como o pensamento se volta sobre ele mesmo e se interroga. Em suma, ela pode se organizar em três breves questões:

  • Por que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? 
  •  O que queremos pensar quando pensamos, o que queremos dizer quando falamos, o que queremos fazer quando agimos? 
  •  Para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que fazemos? 

Portanto, a atitude filosófica inicia-se indagando sobre a essência:” O que é? Como é? Por que é?”. Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?, O quê?, Para quê?, tentando procurar o pensamento e o ato de reflexão.

Filosofia: Um pensamento sistemático

A filosofia não se resume em simples achismos e opiniões, ela não abraça estas crenças. Assim sendo, ela não pesquisa sobre o seu modo de pensar e qual a sua opinião sobre determinada marca, se compraria e qual a estratégia é ideal para te conquistar. Desta forma, as questões são realizadas de forma sistemática e perigosa: ela exige fundamentação racional.

As propriedades das reflexões e das atitudes filosóficas são os pontos de contato entre as diferentes definições de Filosofia. Para Pitágoras, ela se resume na busca pela verdade, já para Kant, ela é o conhecimento que a razão adquire em si mesma.

Saviani e as formas de reflexão

Segundo Dermeval Saviani, citado por Arranha e Martins (1986, p.47), a reflexão é filosófica, radical, rigorosa e de conjunto.

Radical: Procura as verdadeiras raízes do problema e encontra seus fundamentos.

Rigorosa: Deve-se levar em consideração uma visão crítica e analisar de forma generalizada as verdades populares.

Conjunto: Não há como examinar a questão de modo imparcial, sendo importante relacionar a questão juntamente com outra perspectiva e contexto.

Para que serve a filosofia?

No modelo atual de sociedade, a filosofia não se encaixa na definição de utilidade assim como as pesquisas de medicina e os avanços tecnológicos. Ela tem entre seus objetivos o de nos ajudar a encontrar a verdade. A palavra verdade vem do vocábulo grego a-létheia, a-letheúein, que significa desnudar, mostrar o que realmente está por trás das coisas.  A partir da próxima citação, pode-se afirmar que filosofia e ciência possuem campos diferentes entre si. A área analisa se as bases construídas possuem fundamentos; já a ciência tem como objetivo a construção de todo um conjunto. 

Essa pergunta, “Para que filosofia?”, tem a sua razão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata. Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade. […] Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma. Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.

Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados. Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas. Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada (CHAUÍ, 2000, p.10)

As preocupações filosóficas: da Grécia antiga até o Renascimento 

Para Castro (2008, p.11), “As indagações dos filósofos dessa época primeva reapresentam a primeira vontade do ser humano de entender os mecanismos reguladores da natureza para além de qualquer explicação mítica…”.  Logo no século V a.C., após a fracassada invasão Persa, se estende movimentos que favorecem para o surgimento da democracia. Os sofistas passam a investigar além da natureza, como por exemplo, as próprias questões humanas. Como Sócrates não deixara nada escrito, Platão tentava desvendar as origens humanas em suas obras, sendo a mais conhecida A República.

Do final do século IV ao final do século III a.C., surge o  período sistemático, seguindo apenas critérios científicos para as provas e respostas filosóficas. Do século I ao século VII d.C., surge a filosofia patrística, que era uma junção entre a filosofia e o Cristianismo. Desta forma, abraça-se a fé e a crença.  Para Aranha e Martins, ( 1986, p.137) nesta época “Mesmo quando se pede ajuda à razão filosofante, é ainda a revelação que surge como critério último de verdade na produção do conhecimento”.

Durante o período medieval, do século VIII ao século XIV, a igreja e seus interesses dominam a Europa. Assim sendo, a filosofia tenta provar de forma racional a existência de seu Deus e de toda a sua importância. Entretanto, após este período, surgiu o Renascimento ( século XV e XVI): Descoberta de novas terras, monarquias, reformas, liberdade política e uma nova possibilidade do homem agir sobre a natureza.

As preocupações filosóficas na idade moderna e época contemporânea 

Desde o final da Idade Média, encontra-se características que marcam o início da contemporaneidade: Formação de Estado Laico, independência de religiões, revigoramento da filosofia e razão. Após o século XVII, a filosofia começa a se preocupar ainda mais com o conhecer: deseja-se dominar a natureza.  Desta forma, com os pensadores como Galileu, Descartes, Bacon, Hobbes, a filosofia passa a ser definida de outra maneira. Logo, surge a epistemologia. Após isso, no século XIX, surge o otimismo científico que acredita que o futuro tende a ser progressista e repleto de conhecimento, sendo superior ao passado.

– Pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política’. (a Filosofia da Ilustração foi decisiva para as ideias da Revolução Francesa de 1789)

Para Chauí (2000, p. 56), esse período, conhecido como o Grande Racionalismo Clássico, é marcado por três grandes mudanças intelectuais:

  • A filosofia inicia-se pela reflexão e pode se aprofundar na capacidade intelectual do homem.
  • A realidade é um sistema de causalidades racionais rigorosas que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem. 
  • O homem é capaz de conhecer e controlar sua mente e corpo.

Filosofia revolucionária e contemporânea

Para Chauí (2000, p.63):

Marx, no final do século XIX, e Freud, no início do século XX, puseram em questão esse otimismo racionalista. Marx e Freud, cada qual em seu campo de investigação e cada qual voltado para diferentes aspectos da ação humana – Marx, voltado para a economia e a política; Freud, voltado para as perturbações e os sofrimentos psíquicos -, fizeram descobertas que, até agora, continuam impondo questões filosóficas. Que descobriram eles? Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensando e agindo com nossa própria cabeça e por nossa própria vontade, racional e livremente, de acordo com nosso entendimento e nossa liberdade, porque desconhecemos um poder invisível que nos força a pensar como pensamos e agir como agimos. A esse poder – que é social – ele deu o nome de ideologia. 

Freud, por sua vez, mostrou que os seres humanos têm a ilusão de que tudo quanto pensam, fazem, sentem e desejam, tudo quanto dizem ou calam estaria sob o controle de nossa consciência porque desconhecemos a existência de uma força invisível, de um poder – que é psíquico e social – que atua sobre nossa consciência sem que ela o saiba. A esse poder que domina e controla invisível e profundamente nossa vida consciente, ele deu o nome de inconsciente.

 As descobertas realizadas por Marx e Freud, obrigaram a Filosofia a retomada da discussão sobre o que é e o que pode a razão, sobre o que é e o que pode a consciência reflexiva ou o sujeito do conhecimento, sobre o que são e o que podem as aparências e as ilusões. A Filosofia também reabriu discussões éticas e morais: O homem é realmente livre ou é inteiramente condicionado pela sua situação psíquica e histórica? Se for inteiramente condicionado, então a História e a cultura são causalidades necessárias como a Natureza? Contudo, ou seria mais correto indagar: Como os seres humanos conquistam a liberdade em meio a todos os condicionamentos psíquicos, históricos, econômicos, culturais em que vivem.

Como ela se interessa na contemporaneidade?

Atualmente a filosofia se interessa pela epistemologia, ética e conhecimento. Também existe o interesse pela fenomenologia, que trata sobre a consciência e o uso da linguagem. Após a década de 70, começou-se a discutir novamente sobre a democracia dentro de países totalitários e o progresso, surgindo o desconstrutivismo ou pós-modernismo. Assim sendo, os alvos principais desta corrente é a razão, história, necessidade, liberdade e o homem em si.

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