SCHOPENHAUER: Amor, religião e dor.

“Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode-se dizer que tem na razão alguma de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim que nasce da miséria inerente à vida enche o mundo seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.” – Schopenhauer.

Tudo é dor

Schopenhauer inicia sua obra abordando sobre a positividade da dor e do sofrimento. Quando nos sentimos doentes, é a dor que nos faz sentir. Também é o desprazer que nos alerta e só por ele podemos nos alegrar quando algo bom acontece. Se tudo na vida fosse positivo, não teríamos a capacidade de sentir.

“Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. Na vida dos povos, a história só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E, da mesma maneira, a vida do homem é um combate perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros homens. Em toda parte encontra-se um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão. Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que não nos deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia forçando-nos de chicote em punho. – Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.” – pág. 26

A dor e a tristeza como fatores positivos

Sentimos a dor, mas não a ausència da dor; sentimos a inquietação, mas não a ausência dela; o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo como sentimos a fome e a sede; mas apenas satisfeitos, tudo acaba, assim como o bocado que, uma vez engolido, deixa de existir para a nossa sensação. Enquanto possuímos os três maiores bens da vida- saúde, mocidade e liberdade- não temos consciência deles, e só os apreciamos depois de os termos perdido, porque esses também são bens negativos. Só notamos os dias felizes da nossa vida passada depois de darem lugar aos dias de tristeza…

A medida que os nossos prazeres aumentam, tornam-nos cada vez mais insensíveis; o hábito já não é um prazer. Por isso mesmo a nossa faculdade de sofrer e mais viva; todo hábito suprimido causa um sentimento doloroso. As horas correm tanto mais rápidas quanto mais agradáveis são, tanto mais demoradas quanto mais tristes, porque o gozo não é positivo, mas sim a dor, cuja presença se faz sentir. O aborrecimento dá-nos a noção do tempo, a distração tira-a.

O que prova que a nossa existência é tanto mais feliz quanto menos a sentimos: de onde se segue que mais vale vermo-nos livres dela. Não se poderia absolutamente imaginar uma grande e viva alegria, se essa não sucedesse uma grande miséria, porque nada há que possa atingir um estado de alegria, serena e durável; o mais que se consegue é distrair, satisfazer a vaidade. E por esse motivo que todos os poetas são obrigados a colocar os seus heróis em situações cheias de ansiedades e de tormentos, a fim de os livrarem delas: drama e poesia épica só nos mostram homens que lutam, que sofrem mil torturas, – cada romance oferece-nos, em espetáculo, os espasmos e as convulsões do pobre coração humano. Voltaire, o feliz Voltaire, que tão favorecido foi pela natureza, pensa como eu, quando diz: “A felicidade não passa de um sonho, só a dor é real”;

SCHOPENHAUER: Deus realmente existe?

A miséria e o trabalho é o que torna a vida do homem tolerável. Caso tudo fosse coberto de flores e felicidade, o ser humano poderia facilmente entediar-se e muitos procurariam o suicídio como uma solução para sentir. Em suma, causaria-se cada vez mais sofrimento, ainda maiores que os que a natureza lhes impõe.

Logo, ao pensar em nossa condição, paramos para refletir sobre a verdadeira possibilidade de uma obra divina. Se Deus criou o mundo, por que juntamente com suas possibilidades não criou um mundo melhor? Ou seja, toda a miséria protesta demasiadamente com a hipótese de um possível criador bom. Caso contrário, seria uma obra com o intuito de humilhação? Se Deus é perfeito, por que possuímos tantos males? Não seríamos nós a sua imagem?

“Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser este Deus: a miséria do mundo esfacelar-me-ia o coração.” (38)

Pão e circo como uma tentativa de sobreviver

Durante a mocidade, ainda temos sonhos positivos e podemos sentir devido à sensibilidade. Entretanto, tudo se perde quando chega-se à velhice e o amargor toma conta do indivíduo em sua íntegra. Portanto, é raro que um homem no fim de sua vida deseje recomeçar o caminho enquanto continua sendo sincero e ponderado.

Enquanto o tempo que respira, ele tenta conservar a necessidade de assegurar sua existência. Nada obstante, no resto de seu tempo livre, tenta ocupar a mente: cria atividades, procura homens que ao pouco se gosta. Consequentemente, o pão e circo se torna essencial: o domingo representa o tédio enquanto os outros seis dias da semana demonstram a pobreza.

Instinto sexual e o amor

A natureza necessita do amor para a sua continuação. Destarte, o instinto dos sexos se manifesta e dá origem à vontade absoluta de manifestação e criação. Assim sendo, os amores apenas se contentam com o gozo físico, o toque. Apenas a imaginação consoladora não é suficiente para a procriação.

Logo sendo este o objetivo, eles tendem a atraírem-se pelo belo e o forte. O primeiro olhar nunca repara em uma personalidade atraente, e sim, em estímulos físicos. As características intelectuais são visualizadas somente após uma análise física. Entretanto, toda a felicidade é uma simples criação da natureza para iludir o indivíduo e conseguir cumprir com os seus objetivos. Melhor dizendo, essa ilusão não passa do próprio estímulo.

Deste modo, o amor pode se resumir no impulso da espécie e de apenas uma necessidade específica. Schopenhauer tenta justificar a traição masculina com o fato de um só homem poder gerar mais de 100 crianças em um ano com 100 mulheres diferentes, enquanto sua companheira com 100 homens diferentes, só consegue gerar um filho. Ou seja, a traição resultaria somente de estímulos da espécie, sendo aceitável a traição masculina e não feminina.

Satisfação da espécie

Ocorre inicialmente, do homem e a mulher sentirem-se atraídos por algo que envolva além do físico. Acontece pois ambos possuem determinado graus de sexualidade que se compensam e se neutralizam. No entanto, geralmente o amor surge logo à primeira vista e pode ter origem metafísica.

Romances como Romeu e Julieta são uma prova de como o indivíduo obedece sua espécie e não a sociedade. Os pais desejavam que não ficassem juntos devido ao ódio entre as famílias, mas o amor promovido pela espécie fez com que ambos desobedecem as ordens e recorrem ao caminho extremo. Para Schopenhauer, a vontade da espécie também faz com que ignoramos todos os lados negativos do outro. Contudo, quando satisfazemos a necessidade, o outro se passa como um ser detestável.

Mulher como ser inferior e criador

A mulher não nasceu para produzir intelectualmente e materialmente, ela serve apenas para suportar as dores do parto e as dores dos filhos durante a infância. Assim, ela não pode sentir prazer, só a dor, devendo sempre seguir o marido em suas atitudes. Em suma, ela permanece uma criança grande, metade homem e metade infantil. 

Para Schopenhauer, a natureza deus aos homens a força para defenderem-se e dotaram as mulheres de dissimulação e mentiras. Fora importante que a natureza agisse com seus instintos sobre o homem para que ele conseguisse amar uma mulher. Como disse Rousseau “As mulheres em geral não apreciam arte alguma, não as conhecem e não têm talento algum.” 

É desta forma que Schopenhauer tenta diminuir um sexo em pró de outro: O sexo feminino não possui inteligência e nunca conseguiu produzir nada de grandioso durante toda a história. O que diria ele, se descobrisse que as mulheres nunca produziram obras grandiosas por simplesmente não terem o direito e permanecerem alienadas em uma ideologia machista? O que diria Schopenhauer, se soubesse que anos depois de sua obra, o maior número de estudantes em universidades brasileiras é justamente deste sexo? Como uma moça em seu século, poderia discutir as artes sem ao menos ter sido educada para isso como os homens o foram?

Citações de Schopenhauer:

“Devido à nossa organização social, absurda no último grau, que as faz partilhar títulos e a situação do homem por muitos elevados que eles sejam, exitam-lhe com encarniçamento as ambições menos nobres (…) corrompem a sociedade moderna.” – pág. 74

“Foi o que muito bem pensaram (…) os povos do Oriente; compreendiam muito melhor o papel que convém das mulheres, do que o que nós fazemos com a nossa galanteria à antiga moda francesa e a nossa estúpida veneração, que é na verdade a ostentação mais completa da tolice germano-cristã. Isso serviu apenas para torná-las arrogantes e impertinentes (…) que julgam que tudo lhes é permitido.” – pág. 75

“(…) não tem nada para inspirar veneração e receber homenagens, nem para levantar mais a cabeça que o homem. Nem para ter direitos iguais ao dele.” – pág. 76

Referência

SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. 1. ed. São Paulo: Edipro, 2018. 128 p. v. 1.

Um comentário em “SCHOPENHAUER: Amor, religião e dor.

  • 21 de maio de 2020 em 00:58
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    Que blog incrívelll! Tô amando!

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